A janela da sala fica aberta quase o dia todo. Não é grande, mas o vento entra fácil e traz coisas. Às vezes é só ar fresco. Outras vezes carrega cheiros da rua — pão assando, terra molhada depois da chuva, ou o perfume de sabão que alguém está usando para lavar roupa no quintal de trás.
Eu gosto de sentar perto dela quando o vento está mais forte. Não para sentir frio. Para ouvir o que ele traz. Sons que vêm de longe: o latido de um cachorro duas ruas acima, o motor de uma mota que passa na estrada principal, vozes de crianças brincando no largo. O vento mistura tudo e entrega na minha janela como se fosse um presente.
Cheiros que contam histórias
Um dia o vento trouxe o cheiro de lenha queimando. Não era da minha rua. Deve ter vindo de uma casa mais longe, talvez de alguém que estava fazendo comida no fogão a lenha. O cheiro ficou na sala por quase uma hora. Eu fiquei imaginando quem era, o que estava cozinhando, se tinha companhia.
Outro dia trouxe cheiro de laranja. Era primavera, e alguém tinha podado uma laranjeira no quintal vizinho. O vento pegou os pedaços cortados e trouxe o cheiro até aqui. Eu abri mais a janela para deixar entrar mais.
Sons que aparecem e desaparecem
Os sons são mais difíceis de guardar. Vêm, ficam alguns segundos, e vão embora. Uma vez ouvi uma conversa entre dois homens que passavam na rua. Não entendi as palavras, só o tom. Um parecia contar algo engraçado, porque o outro riu alto. O vento trouxe o riso até mim e depois o levou. Eu nunca soube o que era tão engraçado, mas o riso ficou na cabeça por algum tempo.
Em dias de chuva, o vento traz o som das gotas batendo no telhado de zinco do vizinho. É um som ritmado, quase musical. Eu fico ouvindo e pensando em quantas vezes aquele telhado já ouviu chuva desde que foi colocado.
Por que fico quieto
Quando o vento está forte, eu tento não fazer barulho. Não ligo a rádio, não mexo nas coisas. Só fico quieto para não atrapalhar o que ele traz. É uma forma de prestar atenção sem interferir. O vento não precisa de mim para existir. Mas quando eu fico quieto, consigo receber melhor o que ele decide entregar.
Às vezes anoto depois. Não as palavras exatas — porque muitas vezes não são palavras. Anoto o que senti: “vento trouxe cheiro de terra” ou “ouvi crianças rindo longe”. São notas curtas. Mas quando releio, consigo lembrar do momento com mais clareza do que se não tivesse anotado nada.