Tenho uma gaveta na escrivaninha que está sempre um pouco desarrumada. Dentro dela guardo pedaços de papel de vários tamanhos: guardanapos de café com frases escritas às pressas, bilhetes que encontrei no chão, recibos com anotações no verso, e pequenos cadernos que já estão cheios mas que ainda não abri de novo.

Não é bagunça por preguiça. É uma coleção. Cada pedaço tem um momento guardado. Às vezes, quando não sei o que escrever, abro a gaveta e leio alguns. É como visitar velhos amigos que não vejo há tempo.

“Nem tudo o que se anota precisa virar texto bonito. Às vezes basta que fique guardado para que um dia volte a fazer sentido.”

O que se encontra ao revirar

Ontem encontrei um guardanapo com uma frase escrita a lápis: “o gato do vizinho dormiu na janela o dia todo”. Não lembro quando anotei. Mas ao ler, consegui lembrar do dia. Era um sábado quente, eu tinha saído para comprar pão e vi o gato preto esticado na janela do primeiro andar, com o sol batendo direto nele. Ele nem se mexeu quando passei. Anotei porque achei que o gato parecia feliz de um jeito que eu não costumo ver em gatos de cidade.

Outro pedaço era um bilhete que alguém deixou na mesa de um café. Estava escrito “não te esqueças do pão para a mãe”. Eu não sei quem escreveu nem para quem. Mas guardei porque a frase parecia importante para alguém naquele momento. Agora está na minha gaveta, esperando.

Por que não jogo fora

Poderia limpar a gaveta. Jogar fora o que já não lembro. Mas se eu fizer isso, perco a chance de reencontrar coisas que ainda podem dizer algo. Às vezes leio um pedaço antigo e ele combina com algo que estou vivendo agora. Outras vezes só me faz sorrir do jeito como eu via as coisas naquela época.

Não são todos os papéis importantes. Muitos são só rabiscos. Mas o conjunto conta uma história que nenhum texto organizado conseguiria contar sozinho. É a história de alguém que decidiu guardar pedaços soltos em vez de tentar arrumar tudo.

O momento de abrir de novo

Não abro a gaveta todo dia. Às vezes passam semanas. Quando abro, é porque estou procurando algo específico ou porque estou sem ideias. Quase sempre encontro algo que não esperava. Um bilhete que parece escrito por outra pessoa, ou uma frase que agora faz mais sentido do que quando foi anotada.

Esses reencontros são o que me faz continuar guardando. Não sei o que vou encontrar da próxima vez. Mas sei que vai ser algo que eu decidi guardar em algum momento, por algum motivo que talvez já tenha esquecido. E isso é suficiente para manter a gaveta cheia.

“As gavetas cheias de pedaços são como memórias que ainda não terminaram de ser escritas.”