Andre Bos

Alguém que decidiu guardar pedaços pequenos do tempo em vez de tentar entender o todo.

Como cheguei aqui

Nasci nos Países Baixos, numa cidade onde as coisas funcionam bem e na hora certa. Estudei, trabalhei em escritórios, tive horários, metas e planos que pareciam fazer sentido. Tudo organizado. Tudo previsível. E, de certa forma, tudo um pouco vazio.

Em 2014 vim a Portugal por um projeto de seis meses. Era para ser temporário. Cheguei com malas leves e a cabeça cheia de coisas que precisava resolver quando voltasse. Mas os seis meses viraram um ano. O ano virou cinco. E agora já são mais de dez anos que moro na mesma vila pequena no interior.

O que me fez ficar

Não foi uma decisão grande. Foi o acúmulo de pequenas coisas. O padeiro que já sabia o que eu ia pedir antes de eu abrir a boca. O vizinho que me cumprimentava toda manhã como se eu tivesse sempre morado ali. A forma como as tardes pareciam mais longas porque ninguém estava com pressa de acabar o dia.

Em algum momento percebi que o meu ritmo holandês não combinava com o ritmo da vila. Tentei manter os dois por um tempo. Acordava cedo, fazia listas, tentava ser produtivo. Depois percebi que estava lutando contra o lugar onde vivia. Larguei as listas. Comecei a acordar sem alarme. E comecei a anotar o que via quando não tinha nada programado.

Por que guardo pedaços

Não escrevo para publicar. Escrevo porque gosto de guardar. Às vezes uma frase que ouvi na padaria, às vezes só o jeito como a luz bateu na parede numa tarde específica. Não são textos longos. São notas curtas, muitas vezes em pedaços de papel que depois vão para uma gaveta.

Com o tempo, essas notas viraram uma forma de memória. Quando releio, consigo lembrar de dias que de outra forma teriam desaparecido. Não são dias importantes. São dias comuns. E é exatamente por isso que vale a pena guardá-los.

O que estas páginas são

Não são conselhos sobre como viver devagar. Não são memórias organizadas. São apenas alguns dos pedaços que decidi compartilhar. Escolhi os que parecem mais universais — coisas que qualquer pessoa pode reconhecer se parar para olhar: a luz numa parede, uma conversa na padaria, o vento que entra pela janela.

Não tenho um método. Não sigo um plano de escrita. Anoto quando algo me chama atenção e depois, quando parece certo, transformo em texto um pouco mais longo. O resto fica na gaveta, esperando.

Por que compartilhar agora

Durante muito tempo estas notas foram só para mim. Mas em algum momento percebi que guardar tudo só para mim era como guardar uma conversa que ninguém ouve. Compartilhar é uma forma de dizer: “Isto também existe. Alguém notou isto.” Talvez alguém que leia encontre algo que também lhe pareça familiar. Não porque viveu o mesmo dia. Porque também presta atenção nas coisas miúdas que o dia oferece quando ninguém está com pressa.

Obrigado por ler até aqui. Se alguma nota ficou com você, isso já é mais do que suficiente.

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